Meu sonoro banzo AM

Na quarentena, resgatei meu velho companheiro

10 Maio 2020 | Domingo 16h05

Quando vazaram as primeiras notícias sobre a desocupação da faixa AM no Brasil, senti um fiapo antecipado de nostalgia. Como conviver com o silêncio de vozes intercaladas por prazerosos zunidos noturnos?
 
Lá atrás, na primeira metade da década de 70, a alternativa para obter informações políticas no Brasil era ouvir as rádios em ondas médias de países vizinhos à noite. Nas daqui, desnecessário lembrar, éramos apenas uma "corrente pra frente".
 
Em 1973, porém, democracias sólidas como Uruguai e Chile sucumbiram a quarteladas violentas. Na Argentina, o "massacre de Ezeiza" contaminou a frágil redemocratização com vendetas sem fim.  Opções: BBC de Londres ou Rádio Moscou pelas ondas curtas.
 
Nessa última, o programa "Escucha Chile" azucrinava a consciência dos verdugos de Pinochet pouco antes da meia-noite. Transmitido em espanhol até 1989, o noticiário carregava nas denúncias embaladas pelo prefixo "Igual que tu" (ouça abaixo).
 
Aos 20 anos, curtia em minha cama o sussurrar das ondas eletromagnéticas encorpadas pela dicção afinada de um casal de chilenos exilados. Não raro, desapareciam em zumbidos etéreos ao som de uma flauta andina.
 
Comungo repulsas a ditaduras, mas a antiga paixão pelo rádio me levou a religar nesta semana um velho receptor ao lado da cama. Não consegui sintonizar nada nas ondas curtas. Culpa da internet, creio, ou da falta de uma boa antena, mas nas ondas médias uma grata surpresa.
 
Cravada na frequência de 920 kHz, a Rádio Nacional de Assunção - emissora estatal do Paraguai - devolveu-me ao relento das madrugadas. Fiel à matriz bilíngue oficial do país, ela alterna conteúdos em espanhol e guarani intercalados por guarânias.
 
Minha surpresa com a descoberta tem explicação na primeira frase deste devaneio. Até 2019, a  Difusora de Içara transmitia em 910 kHz, o que obliterava qualquer sinal adjacente. Deslocada pra banda FM, deu lugar aos versáteis hermanos.
 
Entendo bem o castelhano deles, nadinha do guarani, mas estou aprendendo. Descobri de ouvido que esse idioma americano tem mais de cinco vogais e que é falado também por paraguaios sem vínculos com a raiz indígena.

Entre notícias e zunidos gerados a 895 km (Google Maps), a Rádio Nacional justificou o resgate de meu outrora inseparável companheiro.

É ou não é absolutamente incrível o que estes tempos de quarentena são capazes de fazer com a gente?
 
 

 
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