Chagas, uma ausência de 20 anos

Nada a celebrar além da igualdade nas diferenças

31 Março 2019 | Domingo 11h14

Rolava a campanha eleitoral de 1978, a última sob a camisa de força do bipartidarismo pós-64. De um lado os "prós" (Arena), de outro os "contras" (MDB).
 
E lá seguimos nós, tal qual exército de Brancaleone, para cobrir de cartazes os postes de madeira à entrada do Rincão.
 
No Fusca, cinco. No papel, tingido de preto e vermelho, nosso candidato à Assembleia, o promissor repórter de um jornal local. Valdemir, seu nome, Chagas, o sobrenome e nome de guerra. Emanava poder.
 
Oposicionista, ele tinha miseráveis chances de se eleger, mas como ex-empregado de carbonífera, pobre e negro nascido na Próspera sonhava com a resposta popular nas urnas. Sonhávamos.
 
À meia-noite, a escadinha fincada um palmo na areia, a lata com cola de farinha de mandioca ao alcance, surpresa. A 20 metros, para um carro. Um carrão.
 
Faróis altos, motor ligado, vozes altercadas de um bando. O motorista acelera e ao passar por nós esbraveja: "Comunistas #@$%&*!!"
 
Nossa reação preservou o nível: "Vai tomar #@$%&*!!" E dê-lhe cola de mandioca nos postes.
 
Após cinco minutos, o veículo retorna e para de novo a 20 metros. Imersos na escuridão, ofuscados pelos faróis altos, nada mais víamos.
 
Silêncio até que detectamos com o "delay" ocasionado pelo vento um sonoro pá, pá, pá, algo que nossa interpretação processou sem retardo algum: eram tiros.
 
Cerca de 10 minutos depois, chamando daqui e dali entre cômoros, conseguimos reaglutinar o grupo para recolher a escada, o que sobrara de cola e de cartazes.
 
Concluímos que o eleitorado praiano não era tão expressivo assim para valer o risco e voltamos para nosso QG no antigo Poço Nove, hoje bairro Nossa Senhora da Salete.
 
Naquele Quinze de Novembro, o candidato das massas oprimidas não se elegeu. Povo ingrato. Em 1980, aprovado para o curso de Direito em Itajaí, migrou com esposa e filho.
 
Chagas não se encontrou na faculdade nem nas ciências jurídicas, mas destacou-se como um dos melhores jornalistas catarinenses no início dos anos 80.
 
Deixou inúmeras reportagens e foi o primeiro afro-brasileiro do sul de SC a cruzar de volta o Atlântico. Acompanhou e publicou em duas páginas de O Estado a entrega de um barco de pesca, construído num estaleiro de Itajaí, na República do Congo.
 
"Branco", assim me chamava para me lembrar, insistia, que éramos grandes amigos, mas diferentes, debochava de neologismos como afro-isso, afro-aquilo. "Negão é negão", carimbava.
 
Deboche, aliás, entremeava seus pensamentos e suas tiradas. O primeiro comentário que me fez ao voltar da Mãe África foi: "Negro falar francês, eu até entendo, mas negão fazendo biquinho..."
 
Quando vinha a Criciúma, abduzia o veículo que eu tinha e sumia. Às vezes por dias. Ligou certa vez do orelhão da Rodoviária, embarcando para Itajaí: "Branco, deixei teu Fusca na frente do Hospital São João Batista, a chave com o taxista. Leva gasolina."
 
Com a saúde fragilizada desde um grave acidente de trânsito em 1986, viveu menos de um século. Quis o destino agendar seu desenlace para 31 de março de 1999, o dia da Rebentona.
 
Uma data, vale assinalar, que nunca celebramos, mas que repenso desde então. Ressignificada em meu calendário, unge a tristeza com o humor das estripulias e articulações do amigo partido.
 
Sinto sua falta e mais ainda neste final de março de 2019. Talvez porque de tanto reprisar o quanto éramos diferentes, me ajudou a compreender o quanto éramos iguais.

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