Memórias / Brizola e eu

14 Abril 2018 | Sábado 09h18

Publicado em 24 jun 14

Em junho de 1974, eu retornava de Buenos Aires justo no dia em que completava 18 anos. O voo interligava os aeroportos de Ezeiza, Carrasco e Salgado Filho. Era ingênuo e sem qualquer formação política, mas mantinha-me agarrado às lembranças das turbulências de 10 anos antes. Criciúma, afinal, tivera histórias e mais histórias a respeito do golpe militar de 1964.

Em Montevidéu, sentou-se ao meu lado uma senhora inquieta. Como a ajudei a guardar sua valise no compartimento, me agradeceu e começamos a conversar. Indagou minha idade, de onde eu era e puxou um "rosário" de relatos.

"Tua geração não tem a menor ideia do que estão fazendo com o nosso país, meu filho",  sussurrou-me, evitando que a conversa fosse além das nossas poltronas. Senti um clima estranho, aconselhei-me a ficar quieto, mas não me contive. "Como assim?"

Ela explicou. Detalhou. Desceu a ripa nos militares com tal convicção que percebi que eu escolhera o voo errado, a poltrona errada e alguém com quem jamais deveria conversar. Tarde demais. O avião da Pluna já estava sobre território brasileiro e em minutos desceria em Porto Alegre.

Ao perceber minha fisionomia assustada, ela me acalmou. "Fica tranquilo, tu não sabes quem eu sou e ninguém jamais saberá que conversamos." E emendou: "Quando desembarcarmos, eu vou caminhar na tua frente e passar antes pela alfândega. Se acontecer alguma coisa, não fala comigo, entendeste?"

Para minha surpresa - e provavelmente dela também - o meu "sim" saiu destravado. "Acho que sei quem a senhora é", completei, recuperando a coragem. Ela virou seu rosto para mim e me fitou nos olhos sem me desafiar. "A senhora é a Dona Neusa, esposa do Brizola."

Com a mão direita, deu dois tapinhas leves no meu braço, sem confirmar. Aproveitei o ruído dos pneus na pista do Salgado Filho para saciar a curiosidade. "Ele não pensa em voltar?", provoquei. "Não, querido. Meu marido está velho e doente. Não pensa em voltar. Agora, faz o que te disse. Não fala comigo."

Meu relato poderia terminar aqui não tivesse testemunhado uma cena que inflaria o meu orgulho sulista para sempre. Na alfândega, um policial federal alto e encorpado travou o que me pareceu ser o início de um duro interrogatório.

"A senhora é brasileira, mas usa uma carteira de identidade uruguaia??", estranhou. "O senhor sabe muito bem que o governo brasileiro confiscou os passaportes meu e do meu marido", respondeu ela, altiva.
"Motivo da viagem?", prosseguiu. "Visita de dois dias a um familiar enfermo", devolveu.

A cena, a tal cena, veio quando Dona Neusa colocou a mão na valise. "Como vai o Brizola?", indagou o policial, agora em tom cordial. "Vai muito bem, obrigado", agradeceu ela.

No auge da ditadura, Brizola era ainda não só respeitado como admirado, mesmo entre aqueles que se opunham a ele. Durante anos, guardei em segredo a viagem. Só quebrei o silêncio quando Brizola retornou do exílio em 1979. Velho e doente uma ova!

Em 1980, pude finalmente conhecê-lo num "comício" no Bairro da Juventude. Após entrevistá-lo, contei-lhe meu encontro. "A Neusa sempre foi assim", reagiu. Rimos muito.

O depoimento abaixo, de um de seus filhos à ZH, reproduz com extraordinária fidelidade o seu perfil.

João Otávio Brizola: Meu pai sempre preferiu ficar no ostracismo a fazer composições!