No futebol, nosso amanhã foi ontem

08 Julho 2018 | Domingo 18h44

Passamos quatro anos jurando vingança. Jamais pedimos justiça. Vingança, vingança, vingança era tudo o que queríamos.
 
Tite montou a melhor seleção que tivemos depois do penta de 2002 e quando achamos que nos vingaríamos, mandaram os alemães embora.
 
Alemães, espanhóis, portugueses, argentinos. Todos pra casa. Isso que holandeses e italianos nem vieram. Tínhamos faturas em aberto com esses dois também.
 
Até onde lembro, nunca uma copa esteve tão literalmente na cara do gol para nós como esta. A mais fácil de todas as copas. Uma seleção cheia de talentos individuais, timaço.
 
Mesmo assim nos embasbacamos numa assincronia que nos cega, que nos leva a confundir um passado arraigado a glórias e espinhos com um futuro descompromissado, tipo "nem aí".
 
De 2014, a copa em casa, aquela que transformou o dolorido Maracanaço de 1950 de nossos pais numa briosa derrota, pouco se falou desde então. Não lembro de amigos comentando os 7 a 1 em mesas de bar nesses quatro anos.
 
Para as gerações mais novas, o legado do Mineiraço é uma vergonha a ser lamentada pelos próximos 50 anos. Para a nossa geração, privada de tal elasticidade temporal, a Rússia virou sinônimo de vingança, vingança, vingança.
 
Pena que sem os tedescos, relaxamos e gozamos um franco favoritismo. Tal relaxamento emergiu na final da manhã de sexta quando os franceses despacharam nossos vizinhos uruguaios.
 
Articulado e perspicaz como poucos entre os jovens jornalistas por aqui, Denis Luciano somatizou a bem-aventurança anunciada pelos performáticos meninos de Tite. E tuitou às 12:54:
 

França se classifica para ser eliminada na terça pelo Brasil.

 
Que ninguém ouse debochar do otimismo de Denis. Quem de nós não lembrou das três bagas em Paris na Copa de 98 e esfregou as palmas das mãos?
 
E a Bélgica? Ora a Bélgica...
 

Das eliminatórias aqui na América até a primeira fase deste mundial, convenhamos, fizemos tudo certo. Só não aprendemos a desarraigar os tempos dos verbos que conjugamos.
 
Há de chegar a copa em que de novo jogaremos cada jogo a ser jogado e aí aprenderemos a conjugar o que tiver que ser conjugado. Sem vaidades pessoais, sem soberba alguma.
 
Valorando o passado e honrando o presente, reassumiremos a referência internacional nos gramados. A gramática da língua portuguesa é complexa, mas o tempo futuro continua sendo mera consequência.
 
PS - A propósito: aquele "hoax" (boato) amplamente divulgado por emails em 1998 de que vendemos a copa para a França está de volta. Os autores mudaram apenas o ano, o país "comprador" e o jogador depressivo. Já o número de desavisados que passa esse tipo de "fake news" adiante decuplicou.